Edição: 102 - Mês: Agosto - Ano: 9

Como dominar o medo

Na maioria dos casos, o medo exagerado se origina na infância, por meio de

por  Alderi Rabêlo

Um certo grau de medo é normal e inerente a qualquer pessoa. Afinal de contas, ninguém é tão destemido a ponto de uma hora ou outra não sentir temor de alguma coisa, situação ou animal. Por mais corajoso que seja, será que alguém consegue ficar frente a frente com uma onça pintada sem tremer de medo? Sugestão maldosa? Quem sabe, então, substituir o grande e não-amistoso animal por uma sucuri? Se esta opção continua sendo motivo de pânico, não se sinta o mais medroso dos mortais. Você é um entre outros milhares de habitantes deste planeta que desfruta de plena saúde mental. O motivo desta conclusão é muito simples: em situações de perigo, que outra sensação poderia ser desencadeada mais facilmente num ser humano a não ser o medo? Com certeza, nenhuma seria tão representativa.

Até uma criança sabe que uma onça pode estraçalhar alguém em poucos minutos. A sucuri também não fica atrás. Uma presa como a espécie humana pode ser engolida por ela sem muito sacrifício. É fácil, então, compreender quando se trata de um medo racional, proveniente de algo real e concreto, como o dos animais citados.

Mas como explicar a mesma sensação decorrente de coisas completamente insignificantes ou animais inofensivos como uma rãzinha? Não é brincadeira. Tem gente que passa mal só em ver o pequeno anfíbio. Chegar perto pode ser ainda mais drástico. Tocar, nem pensar; seria o mesmo que assinar o próprio atestado de óbito. Exageros à parte, é assim mesmo que muitas pessoas reagem com determinados fatores que lhe causam medo.

Se fosse para listar os inúmeros tipos de medos usando pelo menos 10 exemplos com cada letra do alfabeto, ainda assim não seriam suficientes para catalogá-los. A relação é infindável, tão como seus efeitos nocivos à saúde.

Pode parecer ridículo, mas tem gente com medo de tudo: de um grilinho, de pêlo e até da própria sombra. Se alguém bate o pé, já sai correndo sem olhar pra trás. Um simples Uáááááááá é motivo de grande pavor. É uma realidade e muito freqüente, comprovada diariamente por psicólogos e psiquiatras.

TUDO PODE ACONTECER

A literatura médica apresenta relatos tristes, engraçados e até bizarros provocados por esta manifestação que, estimulada por pensamentos fantasiosos, pode gerar profundas alterações de comportamento. Quando o medo entra em cena, tudo pode acontecer. De repente aquele valentão, corajoso e que enfrenta qualquer coisa na vida se transforma num ser frágil, medroso e que se dobra a uma simples baratinha. Outros não têm a menor dificuldade para matarem uma aranha peçonhenta, uma cascavel, mas um pequeno camundongo faz com que eles tremam na base. O medo é subjetivo bem como as suas manifestações que podem limitar e até incapacitar uma pessoa, dependendo do grau e tempo de sua instalação.

Mas, enfim, independente do objeto gerador de medo, o que deve mesmo ser levado em conta, de acordo com especialistas, é até que ponto esta sensação interfere na vida de uma pessoa, já que o determinante para saber se ele é patológico ou não é o grau de sofrimento e prejuízos que causa no dia-a-dia. Às vezes, atividades rotineiras são seriamente comprometidas em conseqüência do medo exagerado.

A Medicina descreve situações de pacientes que sofrem apenas em conceber a idéia de terem que ficar num lugar fechado, por exemplo. Outros têm diarréia, sudorese e tremores quando ficam em lugares muito abertos e movimentados. Chegam a um quadro fóbico tão extremo que o simples fato de comerem perto de alguém e a possibilidade de estarem sendo observadas já são suficientes para gerar transtorno e grande mal-estar. Existem também aquelas pessoas que sofrem em demasia quando precisam fazer alguma apresentação ou falar em público. Nesses momentos, são bombardeadas por um conjunto de sintomas quase que mortais. Uma carga de adrenalina toma conta, tornando-as, muitas vezes, incapacitadas. Isso sem contar quando alguém dá uma risadinha ou conversa com um colega da platéia. Aí a coisa fica ainda mais complicada. Tal atitude para quem sofre da fobia social, por exemplo, pode significar algo muito grave. É como se essa atitude representasse humilhação ou se essa pessoa estivesse sendo ridicularizada.

MEDO DOENTIO

Segundo a médica psiquiatra Gabrielle Badan, o medo doentio (fobias) pode estar associado a várias causas: fator genético, ambiental, perdas de entes familiares ou pessoas muito próximas, humilhações, negligências e violências sofridas na infância. Tudo o que a criança recebeu nos primeiros anos de vida, principalmente nos primeiros meses, como o cuidado e atenção, podem determinar a causa do problema. “Muitas vezes, quando bebês, elas não tiveram uma determinada necessidade biológica atendida. Choravam de dor e a mãe delas lhes dava leite, imaginando que a razão do incômodo era fome. Choravam de frio e recebiam um analgésico para aliviar a dor. Ao vivenciar tais situações repetidas vezes, acabaram sendo marcadas por um grande estresse e desconforto”, explica.

Na adolescência ou na vida adulta, continua a médica, essa mesma pessoa, ao passar novamente por uma situação importante de estresse, acaba revivendo aquele sentimento desolador e dá então lugar às fobias como, por exemplo, andar de elevador. “Cria-se uma ponte entre o sofrimento atual e aquele vivido anteriormente. O medo não é do elevador, este foi apenas usado como um instrumento para suplantar aquele estresse do passado que poderia ressurgir ou ser recordado por meio desta ponte criada por nós. Há um bloqueio que não permite vir à tona o medo real gerador do problema, numa tentativa inconsciente de nos poupar de tais recordações. Em outras palavras, é mais fácil usar um “bode expiatório”, no caso o medo de andar de elevador, a ter que se dar conta de uma possível rejeição, negligência ou reviver uma perda importante na infância, quando, posteriormente, experimentamos situações ou sentimentos tão ruins quanto esses”, sugere a especialista.

O que acontece de fato, conclui a médica, é uma espécie de transferência de responsabilidade, ou seja, atribui-se ao andar de elevador, um medo ou sofrimento vivido na infância.

PAIS DEPRIMIDOS

A psiquiatra esclarece, ainda, que o fator genético exerce um grande valor no desenvolvimento das fobias. Dessa forma, pais deprimidos e ansiosos possivelmente terão filhos com os referidos transtornos. O ambiente também pode ser determinante, e pais superprotetores e com funcionamento fóbico podem acabar transferindo tal comportamento aos filhos.

A perda muito cedo de pessoas próximas é outro fator importante que também pode ser responsável pelo desenvolvimento de fobias, uma vez que o acontecimento representa um estresse muito grande. Esse impacto negativo pode ser vivenciado com menos, igual ou maior intensidade na vida adulta dessa pessoa. O que pode acontecer? Ainda que em circunstâncias diferentes, ao vivenciar um novo estresse emocional, cria-se uma ligação entre o sofrimento atual e aquele vivenciado, quando da perda, e, nesse caso, também há, na tentativa de nos poupar de tais recordações, um deslocamento na forma de medo irracional para outras situações, atividades, etc.” esclarece.

TRATAMENTO

O tratamento das fobias varia de acordo com o grau e tipo do problema. Elas podem ser tratadas com antidepressivos e/ou ansiolíticos acompanhados de psicoterapia. O tratamento medicamentoso, por meio do equilíbrio dos neurotransmissores cerebrais, visa a atenuar o conjunto de sintomas ansiosos como tremores, sudorese, taquicardia, mal-estar e quadros depressivos que freqüentemente acompanham o problema.

Já a psicoterapia, tem o objetivo de investigar e buscar as possíveis causas e razões que, em boa parte, estão num passado remoto. “Na psicoterapia, lançamos mão do que Freud já fazia no passado: tornar consciente o que é inconsciente, e, dessa forma, encontrar os porquês dos distúrbios e das alterações comportamentais”. Gabrielle Badan  explica ainda que, em casos de fobias de pequena gravidade e comprometimentomínimo, a própria pessoa pode ser capaz de superar sozinha o problema.

O QUE É

Fobia é um medo persistente e irracional de um objeto, uma atividade ou situação específica que resulta em um desejo irresistível de evitá-los. O medo é reconhecido pelo indivíduo como excessivo ou irracional em proporção à periculosidade real do objeto, da atividade ou da situação. É subjetivo, mas verdadeiro. Não se trata de frescura. Existem pessoas que têm medo de algo específico. Outras conseguem reunir medo de várias coisas e situações ao mesmo tempo.

FOBIA SOCIAL

A fobia social é um medo acentuado e persistente, em situações nas quais o indivíduo é exposto a pessoas estranhas ou possível avaliação de terceiros. Ele teme agir de modo que lhe seja humilhante e vergonhoso. O excesso de ansiedade e medo o acompanha durante tarefas comuns como falar, comer, dirigir, escrever, entre outras, a ponto de impedir ou prejudicar significativamente tal realização. Os fóbicos sociais sempre reconhecem que têm algo diferente da maioria das pessoas, mas não sabem que se trata de um transtorno, muito menos que têm tratamento.

A fobia social pode causar prejuízos de várias ordens. Muitas pessoas deixam de se formar na faculdade ou num curso de especialização porque ao final deles seria necessária uma apresentação para a turma ou banca examinadora, o que seria intolerável. Há aquelas, também, que se recusam até as promoções no trabalho pelo medo de terem que falar em reuniões.

FOBIAS ESPECÍFICAS

Diz respeito ao medo acentuado e persistente, excessivo ou irracional, revelado pela antecipação de um objeto ou de uma situação fóbica, como, por exemplo: de voar, permanecer em lugares altos e fechados, de animais, tomar injeção, ver sangue, etc.

AGORAFOBIA

Medos e comportamentos de esquiva múltiplos e variados, centrados em torno de três temas principais: 1) medo de sair de casa; 2) medo de ficar sozinho (a); e 3) medo de estar longe de casa, em situações nas quais a pessoa pode sentir-se presa, embaraçada e indefesa. O indivíduo tem medo de ter sintomas perturbadores em situações nas quais a fuga seria difícil ou não haveria ajuda disponível. Pode ou não estar relacionada à síndrome do pânico (sensação eminente de morte e/ou medo de enlouquecer).

OUTROS MEDOS DE A à Z

· Ablutofobia - medo de tomar banho.

· Acluofobia - medo de escuro ou escuridão.

· Dendrofobia - medo de árvores.

· Fagofobia - medo de engolir ou de comer.

· Gamofobia - medo de casar.

· Hadefobia - medo do inverno.

· Ligirofobia - medo de barulhos.

· Mageirocofobia - medo de cozinhar.

· Obesofobia - medo de ganhar peso.

· Quimofobia - medo de ondas.

· Quionofobia - medo de neve.

· Ritifobia - medo de ficar enrugado.

· Rupofobia - medo de sujeira.

· Selafobia - medo de flashes (luzes).

· Selenofobia - medo da lua.

· Tacofobia ou Tachofobia - medo de velocidade.

· Uranofobia - medo do céu .

· Xenofobia - medo de estrangeiros ou estranhos.

· Xerofobia - medo de secura, aridez.

· Xilofobia - medo de objetos de madeira ou de floresta.

· Zelofobia - medo de ter ciúmes.

· Zoofobia - medo de animais.

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